il miglior fabbro

Domingo

Posted in Uncategorized by pedrolago on Janeiro 21, 2013

Domingo à noite.  A tempestade, além de tudo, rebentou com o telhado do pavilhão e não houve jogo.

Qorban

Posted in Uncategorized by pedrolago on Janeiro 14, 2013

Todos os jogadores conhecem o monólogo mais triste, somando todas as perdas, medos e frio. Eu sinto depois da noite, num espaço onde caibo contra-a-luz no Templo.

Cativo

Posted in Uncategorized by pedrolago on Setembro 10, 2012

Penso pelos meus falecidos, que não conheceram o meu Filho; o exercício de recortar memórias da maioridade. E do uso-fruto, dos meus anos fruindo o doce. Deito-me pela profundidade.

correio

Posted in Uncategorized by pedrolago on Abril 14, 2010

Mestre,

é razoável começar um novo blog para perceber porque deixei de escrever neste?

poemo /2

Posted in Uncategorized by pedrolago on Março 13, 2010

Até há pouco tempo, as folhas com as marcações dos jogos de dados estavam numa das gavetas de cima do aparador da sala grande. O fim-de-semana passado não as encontrei. Pouco consciente, de quando em quando, confirmava a existência das folhas. Provavelmente desapareceram.
Acabo sempre por avançar, nos espaços desconhecidos pisando terrenos de cor.

Afinação

Posted in Uncategorized by pedrolago on Fevereiro 23, 2010

Dispensou o trejeito no modo e irrompeu no refrão quase feliz, simulando a dança, em conluio com as formas estranhas da vida. Cantava quando sobreveio o solo, desobrigando-a da canção. O som do metal, todo aquele cordoamento cingia-a à sala e partia-lhe a vontade de partir. O público consentia com o passar do tempo no modo displicente. Aquilo não passava de um bar onde serviam refeições depois da meia noite. A música era acessória e entre abstraídos, abstractos e os que seguiam o maneio, alguma memória haveria de ficar. Numa mesa estava um grupo de festivaleiros. Regressavam do Sudeste e guinaram para aquele estabelecimento convencidos pelas moelas e picapaus. Fumariam ainda nessa noite o restinho do verão e dormiriam o primeiro sono no comboio. O segundo seria já em casa, depois da boleia dos Pais, antes do arroz de pato do almoço de Domingo e da concentração da claque. As contas do proprietário eram feitas à capacidade máxima de quinze lugares sentados mais o serviço de esplanada no final de tarde. Com o serviço de mensagens escritas chegava aos prédios em frente, mais concretamente à vizinha do segundo andar. Como trabalhava parte da noite, o dia só começava às três e meia da manhã, quando lhe mandava um toque de fios sem fios, e ela abria a porta. Um sujeito postava-se em frente “à casa típica”, esperando o final das canções. Pretendia intimidar os olhares de estranhos sobre a sua mulher, aquela que cantava no palco, aquela que cantava no palco fazendo roçar a voz nos trinados. Um casal servia-se da “meia desfeita”, e, enquanto ele tomava vantagem no despacho do petisco, ela comentava que não “conhecia o nome do prato”. Na mesa ao lado discutia-se a problemática dos radares. O elemento mais esclarecido aludia à ilusão da inexistência de controlo nas estradas secundárias, mas não se chegava ao consenso. Consideravam injusto o cinto de castidade imposto à circulação automóvel, embora, lá no fundo do coração, acreditassem ser melhor assim. Duas amigas tentavam trocar turnos do call-center. A intenção era fazer coincidir as folgas com os fins de semana livres. Entretanto, a música terminou e ela agradeceu sem convicção, apresentando-se e deixando o contacto; desligou o microfone, arrumou o adereço (o xaile) e saiu do restaurante cumprimentando o casal e despedindo-se dos festivaleiros que juravam nunca mais a esquecer. Quando olhou para o parque de estacionamento riu-se por ele já estar à espera dentro do carro.

A festa

Posted in Uncategorized by pedrolago on Fevereiro 18, 2010

Não era sem esforço que os convivas prolongavam a festa além do razoável. Lá fora era o frio e a chuva, e os carros estavam ainda longe para poderem ser alcançados sem dor. A música fora descontinuada e já não se serviam bebidas; a maioria estava já de casaco vestido, apenas aguardando uma aberta para sair, arriscar uma corrida até ao estacionamento. Conversavam sobre o tempo; os estranhos falam muita vez do tempo pensando em si. “Sou o meu próprio castigo”, admitia, vagamente, disciplinando o medo, esgotado que estava o assunto. “A moral deve preceder sempre o hábito”, respondeu o público festivo, gente que não lhe dizia nada. Não existiam substituições, apenas se continuava. “São os costumes”, concordou com a mole que o aborrecia. O coro não respondeu de imediato, uns acenderam cigarros, outros vazaram os copos esquecidos na mão. As horas eram revistas no ecrã do telemóvel e espreitavam a chuva. “O prazer está no ponto de mira”. “É possível que sim”.

Espaço

Posted in Uncategorized by pedrolago on Janeiro 24, 2010

São estas as últimas considerações sobre a tribo perdida no espaço. Não seriam mais de trezentos, homens, mulheres e crianças, os astronautas enviados pelo ar escuro do céu. Eram um ponto pequeno distinto na noite. Depois tornaram-se um ponto insignificante. Mais tarde deixariam de ser um ponto. Encontraram uma raça que percebia a mentira, um povo estranho, habitando um vão entre dois espaços do espaço. Escutavam os viajantes, sorrindo perante o medo. O seu silêncio era modulado por um eco infinito, como se da sobreposição de ruído resultasse o vazio.

poemo /1

Posted in Uncategorized by pedrolago on Janeiro 13, 2010

“mantém essa janela fechada”, disse o Pai preocupado. Ontem tive um pesadelo, o que chega a ser injusto para quem nunca tem sonhos quando dorme. Sonho quando estou acordado, como todo o universo nos dias melhores, mas no momento em que passo a vigília tudo desaparece.

A voz que chega é imperceptível, ciciada desde onde uma memória. Depois a voz será ainda mais baixa. Cumpro a recordação exacta das palavras, podiam ter sido “mantém essa janela fechada”.

Ruinhas 25 (lisboa, gare do oriente)

Posted in Uncategorized by pedrolago on Novembro 28, 2009

Os bancos estão aparafusados à estrutura da carruagem. São de plástico e de uma cromaticidade imediata, com texturas definidas pela ciência. A disposição dos tons obedece a proposições matemáticas, e, tudo isto, é demasiado pequeno para ser influenciado por vontades celestes. Depois temos grandes janelas para lado nenhum, portas com sensores para lado nenhum, avisos não endereçados, publicidade não endereçada e o esquema da cidade. O nome das estações segue a tradição de apreço pela Historia. As pessoas apenas se sentam e são transportadas. Há uma saída com a designação de “Senhor Roubado”. “Chiado” também é um bom nome se pensarmos nele. O que vale é que não pensamos, apenas permitimos que nos levem. Os locais chamam a isto “metropolitano”, marcando as últimas sílabas com propriedade. As probabilidades são infinitas se considerarmos como variáveis apenas os apeadeiros. Pela expressão das suas faces, percebe-se que isto é um quarto escuro que atravessa a cidade; de momento, eu passeio nesta divisão subterrânea impressionado pela facilidade. Há um ponto em que se perde a noção: não sei se controlamos isto ou se isto nos controla, mas tenho escrito num papel a estação onde devo sair. Depois é apenas o tempo. Havia de tentar ouvir o meu corpo, saber das suas razões e sentidos. Quando paro, percebo que não sinto partes do meu pé esquerdo e sou gordo, cifótico e calvo; a minha voz é estridente. E está tudo bem porque não sinto dores. Existem, com certeza, muitos outros pormenores mas, na medida da minha atenção, têm ou terão muito pouca importância.

Recheio (2)

Posted in Uncategorized by pedrolago on Novembro 23, 2009

Conforme assinalado em sede própria, o Twitter já não pergunta “o que estás a fazer?”, mudando a questão para “what’s happening?” – tradução livre “então novidades, o que se passa?”. Uma resposta brilhante é “passa-se muita merda, tuíta” (por Eid Ma), ponderando a interdisciplinaridade da vida. Eu prefiro o económico “’tá tudo bem”, sem o familiar “, tuíta”, adiantando, contudo, que faz muito frio na esplanada do café onde gosto de estar. Seria a minha única preocupação. Se os estranhos apenas falam sobre o tempo, então, eu gostaria de prolongar essa condição à consciência. Assim, depurava a inquietação (que é um barulhinho bom) da ansiedade, derrota, preocupação, complicação e demais porcaria. Pedro, a tua vida melhorou desde que te livraste do telefone sofisticado, que te mantinha sempre possivelmente online? Sim, muito, a sensação principal é de regresso à imaginação; passo mais tempo a pensar. De alguma forma, derrotei a internet.

Shamrock (ep.30)

Posted in Uncategorized by pedrolago on Novembro 21, 2009

Eram seis numa mesma fila transversa dentro do avião, tudo com escala em Zurique, e era uma incomunidade. Um casal oriental seguia para Singapura deixando o filho ao cuidado de uns primos que viviam na Suiça. Um médico polaco chegaria, em último lugar, a Lwów. Não era capaz de determinar a nacionalidade da rapariga sentada a seu lado. A refeição servida era bacalhau com natas (tradução livre) misturado com massa; para a sobremesa tinham tarte de maçã. As televisões rebatíveis passavam um programa alemão de apanhados. O destino era um nome apontado numa agenda, Linzer Strasse. Mais tarde, na volta de reconhecimento à cidade, a vontade seria saltar o gradeamento do parque e passear em Schloss Schönbrunn à noite. Ainda que, com muita certeza, viesse a desistir dessa grande encenação gótica, a singularidade do impulso já o assistia com vantagem.

Shamrock (ep.29)

Posted in Uncategorized by pedrolago on Novembro 18, 2009

Inquietação e torpor. A paciência vazava enquanto ouvia o relato indolente de umas férias em Cervignano del Friuli. A voz era lenta e distante, tolhida, roçagando a inconsciência. O olhar fixava-se num ponto sem matéria, e, possivelmente, conversavam sentados à mesa, na cozinha do pequeno apartamento. Shamrock respondia enunciando o irredentismo como tema central, as terras que não foram salvas, searches, a informação convertida em religião e moral. Mareação e vareio, uns não conseguiam estar sozinhos diante dos seus pensamentos – ocupando obsessivamente o tempo; outros desperdiçavam essa massa informe, induzido a supressão da memória. De tudo, nada haveria de sobejar e seguir-se-ia a metodologia para gestão diferenciada de resíduos. Estava a tocar a Canção de Salomão. Coros seculares perpetuavam a dança esquecida da noiva. Exegeses maculares pediam a Sulamita que parasse o tempo com a espada. Ela permanecia na insensibilidade, dividindo-se em partes que haveriam de continuar o dia. Salomão voava em seu redor e Salumita cercava-o, inviável, não se disponibilizando (completamente) para o presente. Shamrock actualizava sem parar, mantendo uma barragem de dados, premindo a superfície táctil resistiva, consultando feeds como alimento, mementos em “tempo real” e sentidos no real player. O conceito de salvar a terra parecia-lhe ridículo, mesmo considerando visões administrativas e tradições marciais. A terra acaba por nos conquistar.

Shamrock (ep. 28)

Posted in Uncategorized by pedrolago on Novembro 6, 2009

Isto acaba por se cruzar tudo, pensava recordando os dias mais negros, quando, ainda estagiário, cumpria e não assistia os Césares feridos de morte e abandonados nos foyers das pequenas e médias empresas. Eram assim memoranduns, pedaços de folhas (A4) caídas, pessoas que partiam e chegavam, saudavam e eram saudados “Ave! Os que se aprestam para cruzar a lâmina… bendizem-te!”. A esperança do corpo feito falecido surgia sempre depois, tão tarde quanto a oração, “Odeon Odeon, acerta o meu pulso pelo universo e envia-o para o coração”. The director’s cut.

Shamrock (ep. 27)

Posted in Uncategorized by pedrolago on Novembro 6, 2009

Apenas pretendia que o dia terminasse. Chegar ao fim. Sentia a impressão da sua mão no oceano, os dedos na monção. Vira o mau tempo chegar, estivera presente, fora presente, todos esses dias acumulando subentendimentos. O pressentimento, o medo puro que é o medo de tudo, à noite quando tentava conciliar-se no sono. Lia emails na cama:

Fui ao Meia Cave com a J. e o A. O dj era uma merda e só me apetecia sair dali. A pista estava tão cheia que deitava pessoas fora e, dançar ali, era apenas e só uma questão de selecção natural. O Z. encontrava-se multivitaminado, propulsionado por comprimidos tão mal combinados, que estava monoteísta. Falava do Gerês e do Gerês, um amanhecer místico nas Terras de Bouro. Nem consegui perceber se relatava uma experiência passada, ou se sofria por antecipação. Escrevi-lhe um bilhetinho e pus-lho entre a bateria e a capa do telemóvel. Espero que aquela merda não expluda. Não o assinei – existe sempre a hipótese de a polícia lhe vasculhar as coisas – e, para memória futura, quero estar sempre longe das confusões do gajo. Dizia “cuida de ti e olha pela tua saúde. não me voltes a falar do liceu”. Ele conhece a minha caligrafia. Estava tão aborrecida que actualizei o facebook ali mesmo; tratei das colheitas e quase comprei um tractor ao som do Destroy Everything You Touch. Os telemóveis com internet fizeram realmente avançar o tempo, pelo menos o meu. Falei com o J. que me propôs, again, um emprego no seu gabinete de arquitectura. (…)”. Não acredites em ti, não concedas ao credo, esse tipo de coisas.

Shamrock acabou por adormecer; o portátil entrou em idle mode.

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