il miglior fabbro

Afinação

Publicado em Uncategorized por pedrolago, em Fevereiro 23, 2010

Dispensou o trejeito no modo e irrompeu no refrão quase feliz, simulando a dança, em conluio com as formas estranhas da vida. Cantava quando sobreveio o solo, desobrigando-a da canção. O som do metal, todo aquele cordoamento cingia-a à sala e partia-lhe a vontade de partir. O público consentia com o passar do tempo no modo displicente. Aquilo não passava de um bar onde serviam refeições depois da meia noite. A música era acessória e entre abstraídos, abstractos e os que seguiam o maneio, alguma memória haveria de ficar. Numa mesa estava um grupo de festivaleiros. Regressavam do Sudeste e guinaram para aquele estabelecimento convencidos pelas moelas e picapaus. Fumariam ainda nessa noite o restinho do verão e dormiriam o primeiro sono no comboio. O segundo seria já em casa, depois da boleia dos Pais, antes do arroz de pato do almoço de Domingo e da concentração da claque. As contas do proprietário eram feitas à capacidade máxima de quinze lugares sentados mais o serviço de esplanada no final de tarde. Com o serviço de mensagens escritas chegava aos prédios em frente, mais concretamente à vizinha do segundo andar. Como trabalhava parte da noite, o dia só começava às três e meia da manhã, quando lhe mandava um toque de fios sem fios, e ela abria a porta. Um sujeito postava-se em frente “à casa típica”, esperando o final das canções. Pretendia intimidar os olhares de estranhos sobre a sua mulher, aquela que cantava no palco, aquela que cantava no palco fazendo roçar a voz nos trinados. Um casal servia-se da “meia desfeita”, e, enquanto ele tomava vantagem no despacho do petisco, ela comentava que não “conhecia o nome do prato”. Na mesa ao lado discutia-se a problemática dos radares. O elemento mais esclarecido aludia à ilusão da inexistência de controlo nas estradas secundárias, mas não se chegava ao consenso. Consideravam injusto o cinto de castidade imposto à circulação automóvel, embora, lá no fundo do coração, acreditassem ser melhor assim. Duas amigas tentavam trocar turnos do call-center. A intenção era fazer coincidir as folgas com os fins de semana livres. Entretanto, a música terminou e ela agradeceu sem convicção, apresentando-se e deixando o contacto; desligou o microfone, arrumou o adereço (o xaile) e saiu do restaurante cumprimentando o casal e despedindo-se dos festivaleiros que juravam nunca mais a esquecer. Quando olhou para o parque de estacionamento riu-se por ele já estar à espera dentro do carro.

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