Shamrock (ep. 28)
Isto acaba por se cruzar tudo, pensava recordando os dias mais negros, quando, ainda estagiário, cumpria e não assistia os Césares feridos de morte e abandonados nos foyers das pequenas e médias empresas. Eram assim memoranduns, pedaços de folhas (A4) caídas, pessoas que partiam e chegavam, saudavam e eram saudados “Ave! Os que se aprestam para cruzar a lâmina… bendizem-te!”. A esperança do corpo feito falecido surgia sempre depois, tão tarde quanto a oração, “Odeon Odeon, acerta o meu pulso pelo universo e envia-o para o coração”. The director’s cut.
Shamrock (ep. 27)
Apenas pretendia que o dia terminasse. Chegar ao fim. Sentia a impressão da sua mão no oceano, os dedos na monção. Vira o mau tempo chegar, estivera presente, fora presente, todos esses dias acumulando subentendimentos. O pressentimento, o medo puro que é o medo de tudo, à noite quando tentava conciliar-se no sono. Lia emails na cama:
Fui ao Meia Cave com a J. e o A. O dj era uma merda e só me apetecia sair dali. A pista estava tão cheia que deitava pessoas fora e, dançar ali, era apenas e só uma questão de selecção natural. O Z. encontrava-se multivitaminado, propulsionado por comprimidos tão mal combinados, que estava monoteísta. Falava do Gerês e do Gerês, um amanhecer místico nas Terras de Bouro. Nem consegui perceber se relatava uma experiência passada, ou se sofria por antecipação. Escrevi-lhe um bilhetinho e pus-lho entre a bateria e a capa do telemóvel. Espero que aquela merda não expluda. Não o assinei – existe sempre a hipótese de a polícia lhe vasculhar as coisas – e, para memória futura, quero estar sempre longe das confusões do gajo. Dizia “cuida de ti e olha pela tua saúde. não me voltes a falar do liceu”. Ele conhece a minha caligrafia. Estava tão aborrecida que actualizei o facebook ali mesmo; tratei das colheitas e quase comprei um tractor ao som do Destroy Everything You Touch. Os telemóveis com internet fizeram realmente avançar o tempo, pelo menos o meu. Falei com o J. que me propôs, again, um emprego no seu gabinete de arquitectura. (…)”. Não acredites em ti, não concedas ao credo, esse tipo de coisas.
Shamrock acabou por adormecer; o portátil entrou em idle mode.
Ruinhas 24 (j’en connais pas la fin)
Escrevi uma história, um pequeno conto infantil sobre um menino que se entretém a observar o voo dos pássaros. Estuda a forma como o fazem, imita com os braços o bater das asas, imagina esse gesto que quase não lhe parece possível. Um dia pergunta ao Pai se o vai conseguir. A resposta é simples, que sim, que em crescendo poderá ser piloto de avião e voar para onde quiser. O enredo não será original (muito provavelmente decalcado de uma história que li), interessa muito pouco ao caso. A razão porque o “publico” (o verbo é uma tradução abusiva do vocábulo “post”) é o “ruído inocente no fim, tal e qual eu imagino este blog”. Na música designa-se “feedback”, na literatura “analepse”, no cinema “subplot”. Na vida o conceito suspende-se, o “ruído inocente no fim” tem tanto de indefinido como de intangível, um tempo que simplesmente vai passando e as pessoas que permanecem. Também a esperança de não saber o fim.
Ruinhas 23 (não somos aquilo que procuramos no google)
A realidade, quando não a desligo, também me é passada, como uma vaza. a Métrica e depois a sua falta, num jugo, Um jogo que acaba na obsecração, obediente, mas também obcecado, por continuar. Uma prece à metacrítica, ao desconsentimento, ao medo. Gosto de subir a Sé. Entretanto, percebi que qualquer Sé serve, a cidade e as ruas não são particularmente relevantes. Tenho preferência pelo Domingo de manhã, quando estaciono o carro na praça da república e, descendo a rua do avenida ainda sem gente, ensino palavras, signos e sinais. Tenho um fascínio que não explico pelo elevador do mercado, e, depois, por uma esplanada já na encosta de lá (onde paro e bebo o meu descafeinado). Cá fora, as janelas dão para a rua e é possível ouvir músicas que não conheço; das portas saem pessoas que percebem o estranho que sou ali; as paredes têm escritas frases incompreensíveis. Sigo então para a baixa, para o rio e entro na estação “dos caminhos de ferro”, onde assistimos às partidas e chegadas dos comboios.
Os exames do empréstimo demonstraram-me umas análises normais, um electrocardiograma sem nada a registar e uma urina límpida. Nem sequer tenho colesterol. Um destes Domingos almocei em casa da minha Mãe e levei tudo, e o vinho. Senti-me além da idade adulta, uma fé própria, que provavelmente resta depois da feição.
Ruinhas 21
Finalmente vendi a casa. E não acabei com o blog, o que revela o quão fraco posso ser e o pouco que sei destas coisas. Desperdiçado o momento de quebrar um axioma, o crime e a cidade solução, eis-me em Setembro de dois mil e nove. De resto, tudo muito igual, um Verão apenas transtornado pelo peso de decisões financeiras que o tempo irá valorizar. A felicidade é uma arma ainda quente, o sentido do som das palavras, lembro-me bem do dia em desci as 5 escadas de uma loja de instrumentos em Budapeste, e ouvi esta música. Foi estranho porque a rua estava silenciosa e eram duas da tarde CET de um dia muito quente. O dono entregava-se aos estupefacientes, digo eu pelo aspecto, e vendia guitarras muito baratas e órgãos farfisa. Simpatizei com o senhor que falava inglês e compreendia a importância da marca italiana de “sintetizadores” num contexto global. Brevemente regressarei ao centro da Europa. “Dantes ainda saía de casa para ir ao clube de vídeo, mas agora já vi os filmes todos”, o delimitar da condição humana encarado como uma missão, mais além, mais além, diante do mar só as ondas.
Partes
Reservava a religião para depois, ferimento, diferimento, fruição, A questão de conveniência quando simplesmente riscava linhas na agenda. Também estava demasiado cansado para conseguir dormir, uma matemática negra quando tudo estava escuro, o ângulo morto quando a luz da mesinha de cabeceira se dispersava no quarto. Era bem possível que tivesse tocado as partes de guitarra na música, recordava o tacto de tempos de fausto e confusão em estreia. Ouvindo o disco não conseguia discernir o índice da colaboração. Sem cuidados, ressoava uma gravação fraca de alguém que nunca passara de um guitarrista competente, e aquilo estava quase bem executado. shine-A-light(!) , favila, o chão, levantou-se e carregou no botão que dizia stop. Passou como um fantasma sem dor para a cozinha e serviu-se de um copo de um vinho branco prestadio. O foco incidia num lugar diferente do seu, muito embutido no tecto falso, duas cadeiras ao lado.
época
A lista de tarefas era simples, o Estádio há muito que se fundira com o Centro Comercial, e quão difícil poderia ser comprar roupa e um bilhete de época. A distância não era muita e a cidade era vazia, existiam uma série de eras, fases e frases, mas também alguns ecos e a sua singular distorção. “Na maioria das vezes não têm nada nos olhos” respondeu, certa vez, quando lhe pediram uma discrição. As vozes perpassavam as paredes de vidro e as conversas eram perceptíveis, “na maioria das vezes estão sedadas” contava nos jantares. Mesmo à transparência dos corpos era-lhe impossível ver a rua. A luz apenas entrava, ficando imediatamente interdita de efluir, dividida em pequenas partículas. A tecnologia fundia-se com o estilo e era plasmada à parede nativa, um termo de decoro que transformava o espaço num projecto de recolha. Alveneria, as pedras pequenas do organismo tornavam-se um táxon superior, “na maioria das vezes são precipitadas” relatava ao telefone. Entretanto já segurava o bilhete de época.
Ruinhas (19)
Café, diários e canal história (em alternativa documentários new age do odisseia), como na música. E imagens de satélite, alergéneos e outras bem-aventuranças que nem os antigos foram capazes de prever. Fui derrotado pelo mercado imobiliário, de permeio a minha inépcia para negociar, como prémio todas as glórias conexas de viver dentro do tempo. Chega a ser inevitável, no processo cronológico, a estranheza de um local não desaparecer depois de desaparecer, essa virtude de ir continuando indefinidamente. Eventualmente, surgirão novas civilizações com ideias melhores, mas, isso, ninguém sabe. A representação da minha vontade, fel e fuel, talvez passe por reflectir matizes sobredimensionadas, e evitar a transmissão do real. Mas, ibidem, isso ninguém sabe.