il miglior fabbro

Espaço

Publicado em Uncategorized por pedrolago, em Janeiro 24, 2010

São estas as últimas considerações sobre a tribo perdida no espaço. Não seriam mais de trezentos, homens, mulheres e crianças, os astronautas enviados pelo ar escuro do céu. Eram um ponto pequeno distinto na noite. Depois tornaram-se um ponto insignificante. Mais tarde deixariam de ser um ponto. Encontraram uma raça que percebia a mentira, um povo estranho, habitando um vão entre dois espaços do espaço. Escutavam os viajantes, sorrindo perante o medo. O seu silêncio era modulado por um eco infinito, como se da sobreposição de ruído resultasse o vazio.

poemo /1

Publicado em Uncategorized por pedrolago, em Janeiro 13, 2010

“mantém essa janela fechada”, disse o Pai preocupado. Ontem tive um pesadelo, o que chega a ser injusto para quem nunca tem sonhos quando dorme. Sonho quando estou acordado, como todo o universo nos dias melhores, mas no momento em que passo a vigília tudo desaparece.

A voz que chega é imperceptível, ciciada desde onde uma memória. Depois a voz será ainda mais baixa. Cumpro a recordação exacta das palavras, podiam ter sido “mantém essa janela fechada”.

O deserto de Almeria

Publicado em Uncategorized por pedrolago, em Dezembro 19, 2009

A ideia era colaborar no remake de Pamplinas Maquinista – disposto no cenário do filme, entre produtores, realizadores e figurantes, actrizes, figurantes e cactos, sentado numa cadeira com o seu nome. Esperavam que trabalhasse os diálogos, logo ele que há muito se limitara à epistemologia, e nem se recordava de alguma vez ter escrito uma linha de conversa. E eram os que mais cartas recebiam, que mais insistiam nos supostos diálogos, aparentemente, todos quantos estavam naquele maldito deserto de Almeria dispensavam a história. A narrativa seria então o presente, e, face a uma evidente inépcia e outras faltas de vontade, perscrutavam frases nas suas missivas, qualquer elocução que se aproveitasse, enfim, sinais de vida para os separadores do cinema. Os dias sucediam-se e as cadeiras de lona tornavam-se desconfortáveis e, de facto, não existiam hienas en las cárcavas – no caderno de viagem escrevia “os mamíferos, independentemente da condição ecológica, passam um mau bocado no deserto”. Nada daquilo servia para intertítulo (apesar de planearem diálogos, pretendiam seguir a estética do filme mudo) e, às tantas, era só desespero e indefinição. Reconhecia ser parte do problema, tinha uma cota vitalícia nessas coisas, sempre tão aos tombos num corredor de memória com paredes imperfeitas e espaços em branco. Um mau escritor que só se interessava por plantas e explicava a vantagem natural das epífitas. O filme não avançaria e, ainda hoje se lamenta em Almeria, o tempo daquela gente parada no deserto.

Ruinhas 25 (lisboa, gare do oriente)

Publicado em Uncategorized por pedrolago, em Novembro 28, 2009

Os bancos estão aparafusados à estrutura da carruagem. São de plástico e de uma cromaticidade imediata, com texturas definidas pela ciência. A disposição dos tons obedece a proposições matemáticas, e, tudo isto, é demasiado pequeno para ser influenciado por vontades celestes. Depois temos grandes janelas para lado nenhum, portas com sensores para lado nenhum, avisos não endereçados, publicidade não endereçada e o esquema da cidade. O nome das estações segue a tradição de apreço pela Historia. As pessoas apenas se sentam e são transportadas. Há uma saída com a designação de “Senhor Roubado”. “Chiado” também é um bom nome se pensarmos nele. O que vale é que não pensamos, apenas permitimos que nos levem. Os locais chamam a isto “metropolitano”, marcando as últimas sílabas com propriedade. As probabilidades são infinitas se considerarmos como variáveis apenas os apeadeiros. Pela expressão das suas faces, percebe-se que isto é um quarto escuro que atravessa a cidade; de momento, eu passeio nesta divisão subterrânea impressionado pela facilidade. Há um momento em que se perde a noção: não sei se controlamos isto ou se isto nos controla, mas tenho escrito num papel a estação onde devo sair. Depois é apenas o tempo. Havia de tentar ouvir o meu corpo, saber das suas razões e sentidos. Quando paro, percebo que não sinto partes do meu pé esquerdo e sou gordo, cifótico e calvo; a minha voz é estridente. E está tudo bem porque não sinto dores. Existem, com certeza, muitos outros pormenores mas, na medida da minha atenção, têm ou terão muito pouca importância.

Recheio (2)

Publicado em Uncategorized por pedrolago, em Novembro 23, 2009

Conforme assinalado em sede própria, o Twitter já não pergunta “o que estás a fazer?”, mudando a questão para “what’s happening?” – tradução livre “então novidades, o que se passa?”. Uma resposta brilhante é “passa-se muita merda, tuíta” (por Eid Ma), ponderando a interdisciplinaridade da vida. Eu prefiro o económico “’tá tudo bem”, sem o familiar “, tuíta”, adiantando, contudo, que faz muito frio na esplanada do café onde gosto de estar. Seria a minha única preocupação. Se os estranhos apenas falam sobre o tempo, então, eu gostaria de prolongar essa condição à consciência. Assim, depurava a inquietação (que é um barulhinho bom) da ansiedade, derrota, preocupação, complicação e demais porcaria. Pedro, a tua vida melhorou desde que te livraste do telefone sofisticado, que te mantinha sempre possivelmente online? Sim, muito, a sensação principal é de regresso à imaginação; passo mais tempo a pensar. De alguma forma, derrotei a internet.

Shamrock (ep.30)

Publicado em Uncategorized por pedrolago, em Novembro 21, 2009

Eram seis numa mesma fila transversa dentro do avião, tudo com escala em Zurique, e era uma incomunidade. Um casal oriental seguia para Singapura deixando o filho ao cuidado de uns primos que viviam na Suiça. Um médico polaco chegaria, em último lugar, a Lwów. Não era capaz de determinar a nacionalidade da rapariga sentada a seu lado. A refeição servida era bacalhau com natas (tradução livre) misturado com massa; para a sobremesa tinham tarte de maçã. As televisões rebatíveis passavam um programa alemão de apanhados. O destino era um nome apontado numa agenda, Linzer Strasse. Mais tarde, na volta de reconhecimento à cidade, a vontade seria saltar o gradeamento do parque e passear em Schloss Schönbrunn à noite. Ainda que, com muita certeza, viesse a desistir dessa grande encenação gótica, a singularidade do impulso já o assistia com vantagem.

Shamrock (ep.29)

Publicado em Uncategorized por pedrolago, em Novembro 18, 2009

Inquietação e torpor. A paciência vazava enquanto ouvia o relato indolente de umas férias em Cervignano del Friuli. A voz era lenta e distante, tolhida, roçagando a inconsciência. O olhar fixava-se num ponto sem matéria, e, possivelmente, conversavam sentados à mesa, na cozinha do pequeno apartamento. Shamrock respondia enunciando o irredentismo como tema central, as terras que não foram salvas, searches, a informação convertida em religião e moral. Mareação e vareio, uns não conseguiam estar sozinhos diante dos seus pensamentos – ocupando obsessivamente o tempo; outros desperdiçavam essa massa informe, induzido a supressão da memória. De tudo, nada haveria de sobejar e seguir-se-ia a metodologia para gestão diferenciada de resíduos. Estava a tocar a Canção de Salomão. Coros seculares perpetuavam a dança esquecida da noiva. Exegeses maculares pediam a Sulamita que parasse o tempo com a espada. Ela permanecia na insensibilidade, dividindo-se em partes que haveriam de continuar o dia. Salomão voava em seu redor e Salumita cercava-o, inviável, não se disponibilizando (completamente) para o presente. Shamrock actualizava sem parar, mantendo uma barragem de dados, premindo a superfície táctil resistiva, consultando feeds como alimento, mementos em “tempo real” e sentidos no real player. O conceito de salvar a terra parecia-lhe ridículo, mesmo considerando visões administrativas e tradições marciais. A terra acaba por nos conquistar.

Shamrock (ep. 28)

Publicado em Uncategorized por pedrolago, em Novembro 6, 2009

Isto acaba por se cruzar tudo, pensava recordando os dias mais negros, quando, ainda estagiário, cumpria e não assistia os Césares feridos de morte e abandonados nos foyers das pequenas e médias empresas. Eram assim memoranduns, pedaços de folhas (A4) caídas, pessoas que partiam e chegavam, saudavam e eram saudados “Ave! Os que se aprestam para cruzar a lâmina… bendizem-te!”. A esperança do corpo feito falecido surgia sempre depois, tão tarde quanto a oração, “Odeon Odeon, acerta o meu pulso pelo universo e envia-o para o coração”. The director’s cut.

Shamrock (ep. 27)

Publicado em Uncategorized por pedrolago, em Novembro 6, 2009

Apenas pretendia que o dia terminasse. Chegar ao fim. Sentia a impressão da sua mão no oceano, os dedos na monção. Vira o mau tempo chegar, estivera presente, fora presente, todos esses dias acumulando subentendimentos. O pressentimento, o medo puro que é o medo de tudo, à noite quando tentava conciliar-se no sono. Lia emails na cama:

Fui ao Meia Cave com a J. e o A. O dj era uma merda e só me apetecia sair dali. A pista estava tão cheia que deitava pessoas fora e, dançar ali, era apenas e só uma questão de selecção natural. O Z. encontrava-se multivitaminado, propulsionado por comprimidos tão mal combinados, que estava monoteísta. Falava do Gerês e do Gerês, um amanhecer místico nas Terras de Bouro. Nem consegui perceber se relatava uma experiência passada, ou se sofria por antecipação. Escrevi-lhe um bilhetinho e pus-lho entre a bateria e a capa do telemóvel. Espero que aquela merda não expluda. Não o assinei – existe sempre a hipótese de a polícia lhe vasculhar as coisas – e, para memória futura, quero estar sempre longe das confusões do gajo. Dizia “cuida de ti e olha pela tua saúde. não me voltes a falar do liceu”. Ele conhece a minha caligrafia. Estava tão aborrecida que actualizei o facebook ali mesmo; tratei das colheitas e quase comprei um tractor ao som do Destroy Everything You Touch. Os telemóveis com internet fizeram realmente avançar o tempo, pelo menos o meu. Falei com o J. que me propôs, again, um emprego no seu gabinete de arquitectura. (…)”. Não acredites em ti, não concedas ao credo, esse tipo de coisas.

Shamrock acabou por adormecer; o portátil entrou em idle mode.

Ruinhas 24 (j’en connais pas la fin)

Publicado em Uncategorized por pedrolago, em Outubro 15, 2009

Escrevi uma história, um pequeno conto infantil sobre um menino que se entretém a observar o voo dos pássaros. Estuda a forma como o fazem, imita com os braços o bater das asas, imagina esse gesto que quase não lhe parece possível. Um dia pergunta ao Pai se o vai conseguir. A resposta é simples, que sim, que em crescendo poderá ser piloto de avião e voar para onde quiser. O enredo não será original (muito provavelmente decalcado de uma história que li), interessa muito pouco ao caso. A razão porque o “publico” (o verbo é uma tradução abusiva do vocábulo “post”) é o “ruído inocente no fim, tal e qual eu imagino este blog”. Na música designa-se “feedback”, na literatura “analepse”, no cinema “subplot”. Na vida o conceito suspende-se, o “ruído inocente no fim” tem tanto de indefinido como de intangível, um tempo que simplesmente vai passando e as pessoas que permanecem. Também a esperança de não saber o fim.

Ruinhas 23 (não somos aquilo que procuramos no google)

Publicado em Uncategorized por pedrolago, em Outubro 5, 2009

A realidade, quando não a desligo, também me é passada, como uma vaza. a Métrica e depois a sua falta, num jugo, Um jogo que acaba na obsecração, obediente, mas também obcecado, por continuar. Uma prece à metacrítica, ao desconsentimento, ao medo. Gosto de subir a Sé. Entretanto, percebi que qualquer Sé serve, a cidade e as ruas não são particularmente relevantes. Tenho preferência pelo Domingo de manhã, quando estaciono o carro na praça da república e, descendo a rua do avenida ainda sem gente, ensino palavras, signos e sinais. Tenho um fascínio que não explico pelo elevador do mercado, e, depois, por uma esplanada já na encosta de lá (onde paro e bebo o meu descafeinado). Cá fora, as janelas dão para a rua e é possível ouvir músicas que não conheço; das portas saem pessoas que percebem o estranho que sou ali; as paredes têm escritas frases incompreensíveis. Sigo então para a baixa, para o rio e entro na estação “dos caminhos de ferro”, onde assistimos às partidas e chegadas dos comboios.
Os exames do empréstimo demonstraram-me umas análises normais, um electrocardiograma sem nada a registar e uma urina límpida. Nem sequer tenho colesterol. Um destes Domingos almocei em casa da minha Mãe e levei tudo, e o vinho. Senti-me além da idade adulta, uma fé própria, que provavelmente resta depois da feição.

Ruinhas 21

Publicado em Uncategorized por pedrolago, em Setembro 2, 2009

Finalmente vendi a casa. E não acabei com o blog, o que revela o quão fraco posso ser e o pouco que sei destas coisas. Desperdiçado o momento de quebrar um axioma, o crime e a cidade solução, eis-me em Setembro de dois mil e nove. De resto, tudo muito igual, um Verão apenas transtornado pelo peso de decisões financeiras que o tempo irá valorizar. A felicidade é uma arma ainda quente, o sentido do som das palavras, lembro-me bem do dia em desci as 5 escadas de uma loja de instrumentos em Budapeste, e ouvi esta música. Foi estranho porque a rua estava silenciosa e eram duas da tarde CET de um dia muito quente. O dono entregava-se aos estupefacientes, digo eu pelo aspecto, e vendia guitarras muito baratas e órgãos farfisa. Simpatizei com o senhor que falava inglês e compreendia a importância da marca italiana de “sintetizadores” num contexto global. Brevemente regressarei ao centro da Europa. “Dantes ainda saía de casa para ir ao clube de vídeo, mas agora já vi os filmes todos”, o delimitar da condição humana encarado como uma missão, mais além, mais além, diante do mar só as ondas.

Partes

Publicado em Uncategorized por pedrolago, em Agosto 23, 2009

Reservava a religião para depois, ferimento, diferimento, fruição, A questão de conveniência quando simplesmente riscava linhas na agenda. Também estava demasiado cansado para conseguir dormir, uma matemática negra quando tudo estava escuro, o ângulo morto quando a luz da mesinha de cabeceira se dispersava no quarto. Era bem possível que tivesse tocado as partes de guitarra na música, recordava o tacto de tempos de fausto e confusão em estreia. Ouvindo o disco não conseguia discernir o índice da colaboração. Sem cuidados, ressoava uma gravação fraca de alguém que nunca passara de um guitarrista competente, e aquilo estava quase bem executado. shine-A-light(!) , favila, o chão, levantou-se e carregou no botão que dizia stop. Passou como um fantasma sem dor para a cozinha e serviu-se de um copo de um vinho branco prestadio. O foco incidia num lugar diferente do seu, muito embutido no tecto falso, duas cadeiras ao lado.

época

Publicado em Uncategorized por pedrolago, em Agosto 3, 2009

A lista de tarefas era simples, o Estádio há muito que se fundira com o Centro Comercial, e quão difícil poderia ser comprar roupa e um bilhete de época. A distância não era muita e a cidade era vazia, existiam uma série de eras, fases e frases, mas também alguns ecos e a sua singular distorção. “Na maioria das vezes não têm nada nos olhos” respondeu, certa vez, quando lhe pediram uma discrição. As vozes perpassavam as paredes de vidro e as conversas eram perceptíveis, “na maioria das vezes estão sedadas” contava nos jantares. Mesmo à transparência dos corpos era-lhe impossível ver a rua. A luz apenas entrava, ficando imediatamente interdita de efluir, dividida em pequenas partículas. A tecnologia fundia-se com o estilo e era plasmada à parede nativa, um termo de decoro que transformava o espaço num projecto de recolha. Alveneria, as pedras pequenas do organismo tornavam-se um táxon superior, “na maioria das vezes são precipitadas” relatava ao telefone. Entretanto já segurava o bilhete de época.

Ruinhas (19)

Publicado em Uncategorized por pedrolago, em Julho 28, 2009

Café, diários e canal história (em alternativa documentários new age do odisseia), como na música. E imagens de satélite, alergéneos e outras bem-aventuranças que nem os antigos foram capazes de prever. Fui derrotado pelo mercado imobiliário, de permeio a minha inépcia para negociar, como prémio todas as glórias conexas de viver dentro do tempo. Chega a ser inevitável, no processo cronológico, a estranheza de um local não desaparecer depois de desaparecer, essa virtude de ir continuando indefinidamente. Eventualmente, surgirão novas civilizações com ideias melhores, mas, isso, ninguém sabe. A representação da minha vontade, fel e fuel, talvez passe por reflectir matizes sobredimensionadas, e evitar a transmissão do real. Mas, ibidem, isso ninguém sabe.